"Apertar esse teu peito largo e te dizer gritando que não posso permanecer assim"

Não nos conhecemos. Eu era apenas uma criança e a ausência era uma de suas principais características, bastava que olhasse diretamente e eu logo me retesava; tão pouco tempo compartilhado, poderíamos ter aprendido tantas coisas juntos - ficaria bem relutante em andar em uma moto ou escutar esses “funk’s melody’s”, mas faria. Te ensinaria que a vida não gira em torno do que achamos certo, não podemos agir de forma ditatorial quando discordamos de certos parâmetros e atitudes. Viveríamos brigando o tempo todo, até porque, uma hora seu olhar não mais me assustaria e os meus valores seriam respeitados contra ou não às suas vontades. Talvez você tivesse mais alguns filhos; pudesse ver seus netos crescerem e sentir o prazer que vejo em meu avô quando chego a casa dele; talvez você se arrependesse de todo mal que causou em todos ao teu redor e corresse atrás de alguns perdões; talvez você pudesse permitir que eu te conhecesse melhor. Todo mundo tem dito que estamos muito parecidos fisicamente, meu rosto ficou angular feito o teu, a mão que escreve esse texto é igual a tua; mas sou todo a minha mãe. Você gostaria de ver a leoa que me protegeu todos esses anos, ninguém chegou perto, pai - ninguém me machucou e não permitirei que ninguém a machuque, nem mesmo a sua memória. Tivemos tão pouco tempo, pouco tempo, não deu tempo de gravar sua voz, não deu tempo pra tirarmos fotos, não deu tempo pra brigarmos, não deu tempo pra você conhecer Gabriel, Sarah tá enorme, sabia? Minha avó tá ficando velhinha, pai… e não para de fumar, não aguento mais ver a vida minguar na pele dela; não aguento mais me fazer de forte, por mais que pareça, eu não sou feito de gelo. Fui frio a seu respeito durante todos esses anos, ignorei as perguntas sobre saudade esse tempo todo; mas hoje permitirei uma olhada naquelas fotos antigas, o dia passa tão rápido quanto os anos e o “amanhã” logo chegará. Onde quer que esteja, mesmo não “te conhecendo”, desejo o melhor pra ti; fique bem, minha eterna estrela solitária.

Lucas.

cuspi o veneno no teu colo como se tivesse me sentido ameaçado, mas sendo a serpente, que mal devo temer? Tô chorando pra caralho, velho, sentindo falta daquele cigarro podre ardendo nos meus dentes já tão brancos pelo mal uso; quero uma morte lenta. No controle, sempre tive  tudo ao meu redor, meus amigos sempre milimetricamente escolhidos nos dedos, meus relacionamentos dariam belos contos de fadas se não fosse eu o personagem principal - tô te destruindo, vou te destruir - a armadura tem repelido todos os ataques, a ajuda psíquica não chega, a consciência se faz presente quando menos preciso dela; tô surtando pouco a pouco e vou acabar te levando caos abaixo.

tudo perdeu o sentido

Dentro de um compasso, diria assim. Se soubesse dançar, o que certamente não. Mas era domingo, um dia tão bonito. E quente. Enxergava assim: no céu que não tinha estação, como os anos, e que era azul e que era em cima e que era assim em todo lugar, no céu que não tinha pássaro algum e que tinha derrubado cem mil aviões, no céu — havia uma fumaça estranha.  Fumaça, o nome? Neblina, nuvem, resto de alguma coisa, em forma de cogumelo, subindo, hiroshima mon amour. Qualquer uma dessas merdas. Vem sempre em dias assim, de súbito, crescendo, agigantando, voluptuosa, v-o-l-u-p-t-u-o-s-a. E eu penso: chega, mais perto, chega, se aproxima, vem, não para, adentra, que eu preciso morrer. Sufocado, não sei. Vai que é tóxico? Eu respiro, eu puxo de leve o ar como quem crispa as unhas no vazio. Eu tento, assim, de uma forma branda & leve chegar ao outro lado. Um pé diante do outro, pule o riacho, menino, não se afogue não, e de repente: adeus. Estou sufocando, estou resistindo, estou me perdendo. Perdi-me. Mas e se não for? Se não for há outra forma: eu entro no mundo, assim, como cego em tiroteio. Eu não olho pro lado, pra quê? Não há nada a ver, disseram. Pula, uma poça, observa. Abaixa, uma bala, escuta. Gargalha, um idiota, releva. E então me arrastam pro fundo. Com a cara no chão, vê se pode. Sangrando, ralado, joelhos, meu jeans em frangalhos. Foi, caro, sabia? Tudo bem, te perdôo. Vou ficar totalmente sem roupa nessa loucura v-o-l-u-p-t-u-o-s-a de quem não conhece o desconhecido. Pleonasmo, eu acho. Então aceito, é simples. Generalidades, fatos: chover chuva, entrar pra dentro, viver amando. Nuvem nuclear que é sempre maior a cada olhar, meus braços abertos como o de um deus crucificado em seu martírio, eu correndo pro abismo à procura de outro corpo: não encontro, não encontro nunca. Outro dia desisto, por hoje, persisto.  

Circos

(Source: circos)

Não importa o que fizeram de mim,
o que importa
é o que eu faço com o que fizeram de mim.

Jean-Paul Sartre

(Source: c-a-n-a-r-i-o)

"John, tenho uma coisa para te contar: acho que estou apaixonado pela garota do livro que estou lendo. Não ria, é sério. Ela é diferente, cheia de problemas e dúvidas, ama um cigarro e já experimentou algumas drogas; tem um péssimo relacionamento com os pais e seus amigos ela conta nos dedos. Ela sente, sabe? E deixa sentir, não importa-se com os outros. E vive, mesmo que no próximo parágrafo tudo suma de suas mãos. E quando isso acontece, ela sorri e segue em frente. Cara, eu quero ela pra mim."

Escrevendo Estopins. (via escrevendoestopins)

"O poeta diz.
O poeta vê.
O poeta tudo sabe e
ao mesmo tempo
desconhece.
Desde os prazeres da vida
aos prazeres da alma.
O poeta imagina
e então…
vive."

Escrevendo Estopins. (via escrevendoestopins)

"Os seres humanos carecem de bons espelhos. É muito difícil para qualquer um mostrar a nós como somos de fato, e é muito difícil para nós mostrarmos aos outros o que sentimos"

Cidades de papel

(Source: re-amar-te)

05-06/04.

Foi quando te vi, andando com um ar soberano sob os pés confiantes de tudo aquilo que o consistia – o óculos verde limão que não combina com nada, mas que ao mesmo tempo combina com tudo – menino leve, viajante nos planos e nas diplomacias a serem feitas. Sorriu de imediato a um ser estranho até então, com uma bermuda que antes era calça e os cabelos completamente despenteados, este, andava todo desajeitado devido a visível timidez – os óculos pretos combinam com tudo, mas só servem pra o impedir de cair – menino leve, viajante no tempo e no magistério a ser exercido.

Foi quando te vi, estávamos um pouco mais íntimos e sorríamos com frequência – até que surge a primeira discussão – e quando um projeto de thatcherista bate de frente com um projeto de proletariado boa coisa não sai. Resmunguei amargamente de um lado, abismado por não achar certo uma pessoa que aceita o mal como solução a conquistar o bem, mas a raiva que vem em formato de tsunami foi instantaneamente transformada em marolinhas quando teus olhos miraram os meus e pediam um pouco de paz.

Foi quando te vi, estava no teu território e conversávamos normalmente quando o assunto se desviou para algo desagradável, brigamos, o medo de perder um ao outro foi posto em questão pela primeira vez em tanto tempo. Ambos levantaram pra ir embora, e ambos foram. As lágrimas brotavam dos meus olhos quando percebi o quão ignorante e arrogante eu estava agindo; sempre fui de reclamar e não gostar de nada daquilo que me propunham, nada nunca estava do jeito que eu queria – mas o mundo não gira ao meu redor, decidi que o mesmo deveria parar. Liguei, eu só te queria de volta… Em algumas horas tudo já estava normal, o coração em paz se encontrava.

Foi quando te vi, naquele quarto de hotel com as luzes um tanto marrons parecendo um efeito do VSCOcam, minhas pernas tremiam feito bambu verde em meio à tempestades. Chamou-me silenciosamente e em um abraço me envolveu, a fortaleza ruiu como o Muro de Berlim em 89; entregamo-nos ao amor que crescia descontroladamente. Vi tanta beleza em nós que se os “católicos” estiverem certos, rumarei feliz ao inferno. Arctic Monkeys tocava no teu celular enquanto eu insistia pra que você escutasse Phill Veras e sentisse o meu coração fazer tum tum tum, o ciúme cresceu em seus olhos – “Lu, tu é muito fanboy pro meu gosto”. Dormimos abraçados um ao outro naquela noite e respondemos todas as perguntas íntimas sobre o que somos, libertamos os temores do passado, descobrimos que somos um em dois.

Foi quando te vi, eu soube que era amor.

Lucas.

As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino - está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha.

Stephen King

a solidão tem me engolido como aqueles monstros dos desenhos. 
o telefone não toca. 
a porta não se abre. 
ninguém entra e ninguém sai. tudo retido dentro e fora de mim, como se o mundo tivesse parado pra eu sofrer um pouquinho. só um pouquinho. como se o mundo tivesse parado porque agora todos sabem que a minha palestina não é uma flor. 
mas não parou. 
os carros jogam luz aqui pra dentro e eu vejo as sombras como se elas fossem me abraçar. mas não.

meu amor, eu vou pra plutão. as coisas aqui são cinzas e as pessoas apressadas demais pra repararem no caos que tudo isso é. eu sou quase igual a elas (se eu não for pior), porque eu sei e percebo e sinto muito.
eu sempre sinto muito e não faço nada.
te deixarei recados nas paredes.
sinta minha falta.
sinta.

(Source: reciprociar)