"Apertar esse teu peito largo e te dizer gritando que não posso permanecer assim"

você é um caos, sabia? mas não dos belos caos universais, é o caos feito a fome, a miséria e todas as outras desigualdades. me faz questionar o porque de nunca te deixar ir de vez… adora um charme com esse piercing no septo, faz gracinha com esses cachos, titubeia e dá ao entender que vai me beijar… mas não faz nada além de sorrir ao chão.

odeio a sensação de impotência, odeio a sensação que é você - odeio gostar dos teus olhos claros, tal como amo odiar você

“Então compreendi perfeitamente o que gerava a dor. Não era o corte com a ponta da faca, a topada na quina da cama, o amigo que não liga mais, o café que sujou o fogão, as palavras duras, as notícias na tv, obviamente isso soma-se ao fardo, mas não é ele em si. A dor era gerada pela sede insaciável do nada. Pois quando não se tinha o que queria sofria e quando conseguia almejava outra coisa para sofrer. E é por essa sede que os humanos consomem seus dias, pelos futuros que nunca virão ou que serão fadados quando chegarem. E a maior idiotice era perceber: eu também era um desses tais que nunca estava de barriga cheia.”

Fernando Pessoa.

(Source: excretar)

Quero um menino, mas pode ser menina.

Eu quero um menino que discuta comigo sobre Buda ser gordo ou não, onde eu possa ter vários acessos de raiva e brigar pela teoria de que se o mesmo foi um guerreiro, como poderia ter sido gordo - ao passo dele insistentemente berrar do outro lado a existência de lutadores de sumô, ora bolas, eles não são gordos? Eu quero um menino que me leve pra ver a lua lá pelas duas da madrugada, onde observará desatento o fluxo das marés enquanto eu tagarelo sobre meu signo ser regido pelo grande queijo flutuante no céu. Eu quero um menino de olhos profundos, pode ser de qualquer cor, mas que conheça a dor… a dor de ser abandonado por aqueles que amou, a dor de não saber ser suficiente em todos os aspectos da vida, ao passo de sentir a dor pela insegurança de perder aquilo que se tem nas mãos. Eu quero um menino sonhador pra ficar planejando 90% daquilo que jamais iremos fazer, só por hobby mesmo, pra rir do imaginário e depois ficar cabisbaixo em razão do mundo ser tão cruel quando se trata das coisas mais simples. Eu quero um menino feliz ao escutar as músicas novas do Coldplay ou quiçá da Ellie Gouding, tanto faz, mas ele precisa gostar de música o suficiente pra não ligar em acertar a letra, pode ser que viemos a discutir sobre a afinação de uns e outros e esquecer por alguns minutos que não somos juízes do The Voice. Eu quero um menino paciente ao escutar minhas reclamações e reivindicações a respeito da sociedade, pode até me chamar de “feminazi” pra quebrar o clima tenso da discussão, deve ter uma leve noção de História ou Filosofia, mas se não tiver, adoro não entender nada de Química ou suas físicas. Eu quero um menino amante de poesia barroca ou moderna, seja como for, não precisa decorar e fingir que sabe… pegue o marca textos, sublinhe o verbo amar e tá tudo certo. Pode ser que tudo isso seja muito chato pra ele, esse papo de astrologia/história e filosofia, mas esse menino vai ter os olhos brilhando pelo simples fato de me ver feliz. Tá ai, eu quero um menino que goste de me ver feliz, podemos ser somente amigos, talvez, mas a felicidade deve ser partilhada por ambos e nada de um completar o outro, iremos nos transbordar. Eu quero um menino simples financeiramente, que não se importe com roupas de brechó e nem ligue pras novidades da Apple. Ele vai me ligar tendo ou não IOS/Android, eu quero um menino que dispense as palavras e valorize a voz sem se importar se sou TIM ou VIVO. Mas esse menino também pode ser menina, juro que não ligo, pode ter cabelos longos e sobrancelhas feitas, unhas pintadas, vestidos com flores ou sem flores, pode mesmo ser uma menina - eu quero uma menina, pronto - e ela pode ser gordinha ou magrinha, branquinha ou negrinha, tanto faz… quero uma menina pra ser a minha guria nos dias de frio ou minha pitel nos dias quentes.

Eu quero um menino que seja menina, que seja os dois ou um deles, mas que no final da noite cruze os dedos nos meus e diga que tudo vai ficar bem sem ter a certeza que o Sol aparecerá de manhã.

Estopim.

"Olá, eu me chamo Lucas. Lucas Ferreira. /lucasferreira. @lucasf. Tenho 20 anos, 566 amigos, 329 seguidores e 2 anos de terapia. Todos os dias eu checo meus e-mails. A maioria são recados da faculdade, propagandas de livros acadêmicos, confirmações de compras e cadastros em sites de delivery online. Sabe, morro de vergonha de pedir comida por telefone. Eu curso o quinto semestre de Publicidade e Propaganda numa particular famosa da cidade. Moro com meus pais, uma irmãzinha e dois cachorros pequenos. Quem sou eu? Bom, eu sou o Lucas. O que eu estou fazendo? Agora, nada. O que eu estou pensando? Estou pensando na solidão, na verdade. É, estranho… Tem 95 pessoas conectadas no bate-papo. Opa, 94. Eu só não tenho vontade de falar com nenhuma delas. Eu poderia até falar com a Samanta, sabe, a minha vizinha gata que faz três cadeiras comigo, marcar de pegar um cinema, ou coisa assim. Mas roubaram o celular dela… Faz dias que eu não vejo a Samanta. Cara, eu queria mesmo assistir alguma coisa. Meu último check-in no cinema foi… acho que no mês passado. Eu não lembro muito bem do filme. Só lembro que foi um porre porque eu fiquei o tempo todo mexendo no celular. Acho que eu fui com o Joaquim, aquele filho da mãe sumido. Caramba, foi só eu falar que o Joaquim apareceu aqui perguntando se tá tudo bem comigo. Tá tudo bem. Não, não… Muito formal. Tá tudo bem sim, cara. :D Agora melhorou. Joaquim é meu melhor amigo. A gente cresceu junto, na verdade, e viemos do interior pra estudar aqui na capital. Joaquim ainda visita aquele fim de mundo de vez em quando, porque a família dele ainda tá por lá, resolveram não se mudar. É engraçado, até, porque minha casa tem dois andares e eu mal vejo a minha mãe. É como se eu morasse sozinho… É como se eu vivesse sozinho. Eu só subo pra comer, e quando eu subo, eu só vejo as coxas da mamãe estiradas na cama. Não consigo enxergar o rosto dela, porque tem um notebook enorme tapando a minha visão. Eu que comprei esse troço, faz uns dois anos, de presente do dia das mães. Eu subi, dei um beijo na testa dela, tiramos uma selfie, postei no facebook junto com um textinho que eu vi na internet e ganhei umas quarenta e poucas curtidas. Aí voltei pro meu quarto, porque eu tinha que acordar cedo no outro dia… O meu despertador nem sempre funciona e eu acabo perdendo aulas importantes. Quer dizer, eu acho que são importantes. Vou me reunir com a galera. Povo chato… Em pleno sábado. Quase um feriado. Eu podendo ficar no meu quarto, assistindo televisão ou atualizando o twitter, não. Virgem maria… 50 mensagens no whatsapp. E eu só fui esquentar o meu jantar. Esse povo não tem vida, não? Bom, eu fiquei responsável pela conclusão do relatório. Relatório de que mesmo, hein? Eu até anotei na minha check list, mas que droga… Ah! Lembrei. É um trabalhinho besta sobre marketing de internet. É bom eu começar a fazer logo… Vou escrever assim que eu der uma olhada no meu feed. Algumas páginas de humor, atualizações de status de namoro… Gente que eu não queria que fosse feliz, sendo mais feliz do que eu. Mas que inferno! Todo mundo foi na última balada do fim de semana, altas fotos, altas gatas… Só de pensar que no último fim de semana eu fui à praia com a minha família porque era aniversário do meu pai dá uma vontade de me deprimir. “À praia” tá certo ter crase? Deixa eu ver… abrir google… digite sua pesquisa… hum… Estou com sorte? Hahaha, desde que aquelas quinhentas mensagens dizendo que meu número foi sorteado, acho que sim, estou com sorte. Olha lá, Joaquim chamando de novo… Me marcou num vine. Velho, pra que eu vou querer ver vine uma hora dessas? Que coisa sem graça. Mas tá… Vou curtir por amizade. “kkkkkkkk :P” Pera. O Joaquim tá namorando? É sério mesmo? E esse desgraçado nem me avisa? Ah, Joaquim, eu te mato. “amor da minha vida”. Curti… Que meninazinha feia. E olha, Joaquim disse a mesma coisa pra aquela ruiva. Eu gostava daquela ruiva. Ela postava coisas legais sobre filosofia… Mas ele nem tava namorando com ela, acho. Pelo menos, se tava, não atualizou o status. Então é mesmo que nada, deve ter sido só uma ficada rápida. Cara, não to me sentindo bem. Tá dando uma pontada nas minhas costas de repente… Deixa eu ver. Abrir google… o que fazer quando sentimos dor… o que fazer… quando…. sentimos dor. Dor… Pesquisar. Mais de três milhões de resultados. E nenhuma resposta. Ah, é, o trabalho! Lucas, Lucas, Lucas… Qualquer hora, você reprova. Será que a professora respondeu meu e-mail? Vou checar a minha caixa de entrada. Olha lá! Tenho mensagem nova… Credo, do ano passado. Como é que eu não abri isso ainda? Se fosse importante… Ah, não. É só a minha tia desejando feliz aniversário. Eu não falo com ela desde que eu tinha, sei lá, uns dez, onze anos. Titia era um doce de pessoa. Sempre que era meu aniversário, fazia bolo de brigadeiro pra mim. No meu aniversário, recebi 89 mensagens na minha linha do tempo. E nenhuma ligação. Nenhuma visita. Nenhum parabéns pra você. Sabe, quando eu tinha cinco anos, fiz minha primeira festa de aniversário. Eu convidei 12 amigos da escola. Só quem apareceu foi o Joaquim. Eu me pergunto o que foi que mudou de lá pra cá… Mas Joaquim também me mandou um recado naquele dia. E só. Meu tablet tá acabando a bateria… Era só o que me faltava mesmo, o dia não pode ficar mais completo. Ah, quer saber? Dane-se o trabalho. Ctrl+c e tá resolvido. Meu celular tá vibrando… Nossa! Que gata! E me chamou pra conversar no aplicativo de paquera. E aí, você tem quantos anos? Tem namorado? Vamos sair? Você é linda *-* Não… Você é linda ><. Droga… Ficou offline antes de eu enviar. Tudo bem, espero ela entrar de novo. Enquanto isso, vou jogar um pouquinho. Cara, quando eu me formar, nunca vou aceitar fazer essas propagandas que aparecem do nada no meio do seu jogo e você acaba apertando sem querer. Isso é um saco! Um saco mesmo, tipo, muito. Mas onde é que eu vim parar? “Descubra quem de mais interessante está perto de você”. Ok. E quantas pessoas interessantes se interessariam por mim? Essa é a questão. Eu não consigo chamar a atenção nem da minha sala por cinco minutos. Ontem tive que apresentar um seminário, sabe, e todo mundo tava olhando pros seus respectivos smartphones, fofocando, namorando, conversando. Eu até me senti tranquilo, porque era menos gente olhando pra mim, mas aí eu parei pra pensar: e se todo o tempo que essas pessoas gastam deslizando os dedos pra cá e pra lá fosse gasto com alguma coisa de útil? Tipo, sei lá. Só uma ideia mesmo. Acho que teríamos novos Freuds e novos Da Vincis ou sei lá. Alguma coisa assim. Mensagem da mamãe… Bebê, vc vem comer? Hahaha, velho com acesso à tecnologia é osso. Não mãe, eu já comi. Eu passei uma meia hora fazendo o sanduíche e ela nem me viu. Tava mexendo no computador, na certa… Eu também não vi a mamãe, aliás. Será que ela tá em casa? Se não tiver, aproveito e ligo logo pro psicólogo dizendo que não vou poder me consultar amanhã. Na verdade, eu até posso, sabe. É que eu não quero mesmo. E nem a mamãe gosta que eu falte… É que é sempre o mesmo papo, entende. Não me ajuda em nada. Eu chego pro doutor e digo: Doutor, me sinto só. E ele diz: Como você pode arranjar amigos sem sair de casa? Eu penso: Doutor, eu to fora de casa agora. O senhor quer ser meu amigo? Não? Engraçado, o senhor aceitou meu pedido de amizade no facebook semana passada. Mas se eu chamar o senhor pra tomar umas, o senhor aceita? Claro que não. Mas eu fico calado, cara. Eu fico calado e quando ele dá bobeira, eu olho no meu Iphone se falta muito tempo pra acabar a consulta, porque eu só quero ir pra casa e entrar nas redes sociais. Na verdade, eu venho pensando muito mais do que em solidão. Umas 20 pessoas confirmaram presença na minha vida. Eu to esperando, tipo, até hoje. Mas ninguém chega de surpresa, sabe. Eu espero, cara, que alguém, algum dia, apareça pra mim sem alerta de mensagem, sem vibratório, sem toque, sem bip, e não poste em canto nenhum que esteve presente na minha existência, que é um evento finito… O mundo é silencioso, cara. E doí escutá-lo tanto, já que as pessoas não falam mais. O doutor é a única pessoa que olha dentro dos meus olhos. Por uma hora, contadinho. Aí depois eu tenho que pagar ele."

Cinzentos, Lucas Ferreira acaba de solicitar a sua vida de volta.

(Source: cinzentos)

"Olho para trás e vejo aquela menina que queria entender tudo, com medo de que não coubesse tamanha quantidade de informação dentro de si. Coube e ainda cabe. E quanto mais entra, mais sobra espaço para a dúvida. Compreendo hoje que nunca entenderei a morte, os sonhos, a sensação de dejá-vu e as premonições. Nunca entenderei por que temos empatia com uma pessoa e nenhuma com outra. Não entendo como o mar não cansa, nem o sol. Não compreendo a maldade, ainda que a bondade excessiva também me bote medo."

Martha Medeiros.

"A poesia é movimento da linguagem em direção ao desconhecido. Um poeta não se faz com versos. O poeta é movimento. E todo ser em movimento é perigoso. Todo ser que se transforma incomoda. O poeta em movimento flagra o lado patético de nossas verdades absolutas, o belo que se esconde naquilo que tememos."

Paulo Leminski.

(Source: c-a-n-a-r-i-o)

1998

Foi na França a primeira Copa de que tenho lembrança. Embora naquela época não soubesse bem o que era França e o que era Copa. Sei agora que lembro, muitas coisas que tive só fui descobrir depois. Só fui descobrir que eram minhas e eram preciosas. Como a bagunça de pintar a rua, eu, garotinho de cinco anos mal sabia coordenar o pincel, nem entendia muito bem o que significavam aqueles desenhos. Ler eu sabia. Mas era um B tão grande, depois um R, e assim por diante. Precisava me afastar para escandir BRA-SIL. Claro que o desenho era tosco, éramos todos crianças e mesmo entre os adultos nenhum era um Portinari da pintura no asfalto. Verdade seja dita que a tela não era das melhores, o chão rústico de tanto carro indo e vindo, a tinta não fixava muito bem. Ainda assim pintávamos. Pintávamos a nós mesmo e que bronca quando entrávamos. Pequenos mascotes de verde-e-amarelo. Numa dessas tardes pintei no muro, com minha garatuja, o meu nome. CAIO. Entre pipocas & guaranás fui vivendo aquela emoção totalmente nova de acompanhar uma Copa, eu achava que era comum o Brasil ganhar. Oitavas, quartas, semi e então a final. Não preciso dizer o resultado. Só provaria o gosto da vitória quatro anos depois numa manhã de domingo sobre a Alemanha o penta viria fulgurante. Passado quase mitológico. Sim, naquele dia a França venceu em casa, e em casa a frustração, a vida prosseguiu no outro dia. Como prosseguiu sempre. Aos poucos a tinta do chão da rua foi sendo levada pelo ir e vir de tantos anos. Vieram mais duas Copas e de novo perdemos. Das que vi, ganhamos uma em quatro. Seria essa a proporção áurea da alegria, sempre muito menor. O que sei é que foi no travo daquele 1998 que descobri – cedo demais – que a gente nem sempre levanta a taça. Isso tudo é quase fóssil em minha memória. Nem sei o quanto é verdade. Já nem há aquela casa antiga, nem as marcas no chão, não há mais certas pessoas e foi isso que aprendi. Que um dia os nomes se apagam do muro. Do mundo. E a gente finge que esquece, mas é só lembrar pra arder a saudade. E essa dor, Caio, não some nunca da pedra (solitária e fria) do peito.
- Caio Augusto Leite

E partiu. Foi pro Chile com uma passagem só de ida, abandonou a mãe que de tanto chorar adormeceu – enquanto os irmãos, um em cada lugar do mundo, se compareciam de uma família tão mal estruturada. Rompi em lágrimas naquele domingo desastroso por saber que algo em meu íntimo também partira, escondi as lágrimas por trás daqueles óculos que maqueavam e maqueiam a miopia, tem tanta coisa entalada dentro de mim que é capaz das sardinhas encontrarem o caminho do mar. Foi em um instante de coragem, três pessoas de uma só vez não mais ignoravam quem de fato sou, acabaram por saber diante do amor que nutri por aquele rapaz em apenas um mês e me apertaram num abraço sincero a ponto de quase preverem a dor que se seguiria. Dei mais um lento passo pra fora do armário regido por uma coragem absoluta, nada teria forças pra me rejeitar quando eu mesmo já não me rejeitava – foi lindo, tão quanto aquele amor com prazo de validade. Os dias que se seguiram foram cinzas com clarões momentâneos de azul, um sorriso sempre escapa, mesmo em dias ruins… mas a essência, o coração à escuridão retorna e isso nem sempre é sombrio, levando em conta que amamos um bom quarto escuro pra sonhar. Ele foi pro Chile mês passado, eu sabia que não mais retornaria, mas ainda assim o amei.

O amor dessas coisas, dessas coragens.

adoeço. e meio que mereço. faço parte dessa doença que é você. você é doente. isso é evidente. e eu faço parte dessa doença aí que você é. então a gente vive é nesse vice-versa doente. meio doença e meio cura. acompanhando a dança louca de nossas imunidades estouradas. eu fico doente. você fica doente. e depois a gente se cura. amor é doença. me adoenta. me aguenta. depois a gente se cura.


- J.Castro

existem jeitos que nos deixam sem jeito. um abrir de peito que é puro efeito. e uns defeitos no meio. que é pra ficar no jeito. umas aberrações que eu aqui vou chamar de óticas só pra parecer que eu sei do que estou falando. efeito especial. odeio. mas eu sei do que estou falando.

- J.Castro

(Source: poesiadomilhao)

"O rouge virou blush. O pó-de-arroz virou pó-compacto. O brilho virou gloss. O rímel virou máscara incolor. A Lycra virou stretch. Anabela virou plataforma. O corpete virou porta-seios. Que virou sutiã. Que virou silicone. A peruca virou aplique… interlace… megahair… alongamento. A escova virou chapinha. ‘Problemas de moça’ viraram TPM. Confete virou MMs. A crise de nervos virou estresse. A purpurina virou gliter. A tanga virou fio dental. E o fio dental virou anti-séptico bucal. Ninguém mais vê: O à-la-carte porque virou self-service. A tristeza agora é depressão. O espaguete virou miojo pronto. A paquera virou pegação. A gafieira virou dança de salão. O que era praça virou shopping. A areia virou ringue. O LP virou CD. A fita de vídeo é DVD. O CD já é MP3. É um filho onde eram seis. O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail. O namoro agora é virtual. A cantada virou torpedo. E do ‘não’ não se tem medo. O break virou street. O samba, pagode. O carnaval de rua virou Sapucaí. O folclore brasileiro, halloween. O piano agora é teclado, também. O forró de sanfona ficou eletrônico. Fortificante não é mais Biotônico. Polícia e ladrão virou Counter Strike. Fauna e flora a desaparecer. Lobato virou Paulo Coelho. Caetano virou um pentelho. Elis ressuscitou em Maria Rita. Raul e Renato. Cássia e Cazuza. Lennon e Elvis. A AIDS virou gripe. A bala antes encontrada agora é perdida. A violência está maldita. A maconha é calmante. O professor é agora o facilitador. As lições já não importam mais. A guerra superou a paz. E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças."

Luís Fernando Veríssimo.

(Source: cetamourenmoi)